A Bíblia prega o pacifismo e desarmamento?

por Adriano Gama

pacifismNo segundo dia do ano, duas notícias no Portal G1 chamaram a atenção. Numa delas, “Carro passa atirando e mata 4 em bar em SP”. No meio da manhã, parecem ter descoberto que a culpa não era do carro: havia alguém dentro dele puxando o gatilho, e o título foi alterado para “Ataque a tiros em bar deixa 4 mortos em Guarulhos, na Grande SP”.

Em outra manchete, um fato que causou ainda mais perplexidade do que o ataque do carro que atirava sozinho: “Policial militar é preso após atirar e matar homem que invadiu sua casa”. Dessa vez, o título está correto, a narração dos fatos é que parece confusa. Mas, se tudo correu como se conta, o que aconteceu com o direito à legítima defesa no Brasil?

Estamos num país com quase 60.000 homicídios anuais, no qual a grande mídia e o governo são flagrantemente a favor de que se desarme o cidadão de bem, mesmo contra a opinião majoritária dos brasileiros.

Qual a opinião dos cristãos?

Muitos cristãos, especialmente evangélicos, têm endossado essa postura pacifista e anti-armas alegando bom-senso ou razões de fé. Quem não lembra de Magno Malta e Silas Malafaia demonizando a flexibilização do estatuto do desarmamento, às vésperas da votação na Câmara?

De modo geral, não é difícil encontrar crentes e pastores se opondo à liberdade de portar armas e maculando aqueles que desejam armar-se para defesa da vida, patrimônio ou mesmo para lazer.

Eles advogam que ter uma arma de fogo é contra a vontade de Deus, é idolatria, falta de fé, e algo que Deus proíbe, pois armas só serviriam para matar… E afirmam que tais argumentos estão em acordo com o que a Bíblia ensina.

Exemplo disso foi o post que me chegou de um desses pastores, que usava os textos de João 18.1-13, Salmo 127.1, Romanos 12.19 e Tiago 1.20 para provar o que dizia, escrevendo:

“Vejo pastores, teólogos e deputados pessoas renomadas que sobem aos púlpitos das igrejas para prega [sic] o amor e o perdão divino, mas nas rede [sic] sociais se declaram abertamente e como discípulos e até apóstolos de Jesus, porém na primeira oportunidade que tivessem sacaria [sic] uma arma e atiraria na orelha de Malco alegando legítima defesa. A Bíblia ensina o contrário a isso entenda. Fico com a Palavra de Deus a realizar os desejos do meu coração”.

Por trás de tantos erros de ortografia e concordância, estão os vários outros erros de interpretação que surgem quando se tenta fazer a Bíblia ensinar pacifismo e desarmamento:

  1. Ele não considera o que a Escritura fala sobre legítima defesa:

    “Se um ladrão for achado arrombando uma casa e, sendo ferido, morrer, quem o feriu não será culpado do sangue. Se, porém, já havia sol quando tal se deu, quem o feriu será culpado do sangue; neste caso, o ladrão fará restituição total” (Êxodo 22.2-3).

  1. Ele confunde legítima defesa com vingança:

    A vingança é pecado e pertence a Deus. A legítima defesa não é pecado, mas é um direito. Dependendo da situação, pode se tornar um dever. Pois, Deus ama a vida e odeia o sanguinário (Salmo 5.6).

  1. Ele provavelmente não estudou João 18.1-13 seriamente:

    O que Jesus reprovou foi ter uma espada, ou, a tentativa de Pedro usar a espada para impedir a prisão do Senhor? Essa prisão não devia ser impedida para que se cumprisse a Escritura para a nossa salvação. E o Senhor Jesus não precisava de um espada humana para ser livrado da morte, pois, ele tinha poder para se livrar e destruir toda a terra (Mt 26.53-54)! Não dá para ver no texto que a ordem de Jesus não foi “jogue a espada fora”, mas “guarde a espada” (Jo 18.11)? A reprovação de Jesus foi contra a tentativa de Pedro em cortar a orelha de Malco, para impedir a prisão do Filho de Deus.

  1. Ele desconsidera que Pedro usou uma das espadas que o Senhor Jesus ordenou que os discípulos comprassem (Lc 22.36-38):

    E o malfeito de Pedro não estava em ter uma espada, mas fazer mau uso dela. E na Providência, esse mau uso fazia parte do cumprimento da profecia para a condenação do Senhor em nosso favor (Lc 22.37,38). Se fosse contrário à vontade de Deus um crente ter uma arma para sua defesa, por que o Filho de Deus ordenou a aquisição de espadas e não mandou Pedro jogar fora a espada? Por que a Escritura concede o direito a legítima defesa e proibiria os meios eficazes para essa defesa?

  1. Ele não entende que armas de fogo não são feitas apenas para assassinar:

    Elas também servem para nos guardar de homens perversos. Não é isto que a experiência bíblica nos mostra? O que fez Mordecai e os judeus para resistir ao malvado estadista Hamã? Os crentes se organizaram em defesa armada para se proteger do genocídio (Ester 9.1-16). E a atitude não pacifista deles resultou em salvação. A ação não foi contra a vontade de Deus, mas, para a preservação da vida da igreja ali naquela parte do Império persa.

  1. Ele não entende que não se proteger é tentar ao Senhor:

    O Senhor Deus ordenou ter exércitos armados para a defesa do povo e não proibiu seus filhos de terem armas. O Senhor ordenou murar Jerusalém. O Senhor, no Salmo 127, condena o ter sentinelas ou, na verdade, o trabalho que deposita toda confiança no homem? Ter uma arma de fogo não é idolatria e nem falta de fé no poder do Senhor. Assim como não é idolatria, não é falta de fé usar o cinto de segurança quando dirigimos nosso carro, ou termos cadeados e grades em nossas casas. A nossa experiência de vida também comprova que armas de fogo são uma bênção. Os vigilantes nas lojas e bancos usam armas para quê? Para fazer mal ou para nos proteger dos maus? O artigo feito pelo pastor pacifista faz a Escritura entrar em contradição e não respeita o contexto da passagem de João. E é contra o bom senso de nossa experiência humana. Não tentarás o Senhor teu Deus.

  1. Ele não enxerga que a Bíblia não advoga o pacifismo:

    É bom tomarmos muito cuidado para não usarmos a Bíblia como pretexto para pacifismo. Pacifismo não é a pregação da paz. Davi era um homem pacífico, mas era um guerreiro usado por Deus. O pacifismo não tem respaldo na verdade de Deus. E é reprovável usar a Escritura para promover pacifismo e macular aqueles que defendem a liberdade de, quem quiser, crente ou descrente, ter e portar uma arma de fogo como instrumento de defesa (ou lazer).

  1. Ele não respeita a liberdade alheia:

    Se alguém não quer ter uma arma de fogo: assim o faça. Mas, se um crente ou descrente deseja ter: assim o faça. Nesse caso, aquele que não quer ter, não condene quem quer ter. Pois, condenar o ter ou o uso de arma de fogo por crentes é impor uma regra humana como sendo a Palavra de Deus.

Graças a Deus, sua Palavra é a Escritura Sagrada, e não as postagens de pastores pacifistas e desarmamentistas. A Escritura é a espada do Espírito, não uma arma a serviço do pacifismo e do desarmamento do cidadão de bem sob pretexto de piedade.

Adriano Gama é pastor da Igreja Reformada de Colombo, no Paraná.

12 resoluções políticas que mudaram o mundo

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“Não espere soluções prontas vindas do governo. Não cruze os braços.”

Você provavelmente conhece o contexto. A música é Amazing Grace, de John Newton. O protagonista é o político cristão William Wilberforce. Estamos na Inglaterra do século 18 e, depois de diversos anos de luta em diversas frentes, é decretado o fim da escravidão na Inglaterra e, anos depois, a Grã-Bretanha proíbe o tráfico de escravos em todo o globo.

Se você não conhece a história, pode lê-la no capítulo 23 do livro “Servos de Deus”, um maravilhoso apanhado de perfis de homens de fé escrito pelo pastor Franklin Ferreira e publicado em 2014 pela editora Fiel. Lá também ficamos sabendo qual a visão que motivou Wilberforce e em quais pessoas ele encontrou apoio para persistir em tão longa e tão dura batalha.

Além do famoso pregador John Wesley e do próprio John Newton, que convenceu Wilberforce a que não se tornasse ministro do evangelho, mas permanecesse na política — um conselho, aliás, que poucos cristãos estariam hoje dispostos a dar —, o jovem político encontrou estímulo no chamado Grupo de Clapham.

O grupo “reunia pastores, jornalistas, escritores, artistas, empresários, militantes de movimentos sociais e parlamentares” (p. 313) e se movia pelas seguintes resoluções políticas:

  1. “Estabeleça objetivos claros e específicos.
  2. Pesquise cuidadosamente para produzir uma proposta realista e irrefutável
  3. Construa uma comunidade comprometida que apoie uns aos outros. A batalha não pode ser vencida sozinha.
  4. Não aceite retiradas como uma derrota final.
  5. Comprometa-se a lutar de forma contínua, mesmo que a luta demore décadas.
  6. Mantenha o foco nas questões; não permita que os ataques malignos de oponentes o distraiam ou provoquem resposta similar.
  7. Demonstre empatia com a posição do oponente, de forma que diálogo significativo aconteça.
  8. Aceite ganhos parciais quando tudo o que é desejado não puder ser obtido de uma só vez.
  9. Cultive e apoie suas bases populares quando outros, que estiverem no poder, se opuserem a seus projetos.
  10. Transcenda a mentalidade simplista e direcione-se às questões maiores, principalmente as que envolvem questões éticas.
  11. Trabalhe através de canais legítimos, sem lançar mão de táticas sujas ou violentas.
  12. Prossiga com senso de missão e convicção de que Deus o guiará providencialmente se estiver verdadeiramente a seu serviço.” (p. 313-314).

Mas, afinal, o que tais resoluções podem nos ensinar? Pelo menos três coisas:

Firme-se em Deus

O Grupo de Clapham não era composto de pessoas de fé ingênua, utópicos, ignorantes ou que achavam que estavam se sujando por entrar na política. Eles não eram pietistas que faziam divórcio entre a fé que professavam e o mundo real à sua volta, mas criam “numa piedade prática que redundasse em serviço relevante para a sociedade” (p. 314).

Franklin Ferreira nos conta que eles eram crentes “com uma fé sólida, ortodoxos, dedicados à oração e ao estudo das Escrituras, integrados em suas igrejas, dedicados, como Mark Shaw escreve, à ‘luta pela liberdade pessoal e a melhoria de vida daqueles que sofrem, usando para isso as armas da persuasão, educação e legislação’” (p. 314).

Ao entrar na política, buscaram “estabelecer objetivos claros e específicos” e “produzir uma proposta realista e irrefutável”. Buscavam um “diálogo significativo”, direcionado “às questões maiores”, principalmente as “questões éticas”, e sempre usando dos canais legítimos: os fins, por mais nobres que fossem, como era o caso da causa abolicionista, não justificavam “táticas sujas ou violentas”.

Invista na livre associação

Não espere soluções prontas vindas do governo. Não cruze os braços. Se você realmente está interessado em ver mudança, se quer realmente ver as coisas acontecerem, “construa uma comunidade comprometida que apoie uns aos outros”.

Tais pessoas devem, voluntariamente, pôr seu dinheiro naquilo em que acreditam. Ou, como se diz em inglês: “put your money where your mouth is”. O Grupo de Clapham era “constituído de pessoas ricas cujas residências ficavam em Clapham, um elegante bairro localizado a oito quilômetros de Londres, que apoiava muitos líderes leigos na busca de uma reforma social, liderados por um humilde ministro anglicano, Henry Venn” (p. 312).

Mas antes que você diga que só os ricos têm trabalho a fazer aqui, pense na diferença que podem fazer pequenas e fiéis contribuições somadas. Perceba também que, além do dinheiro, todos contribuíam com seus talentos e algo do seu tempo. Além disso, estava expressa a visão estratégica de cultivar e apoiar “bases populares”, sem cuja adesão os projetos seriam facilmente derrotados.

Não retroceda

Em Hebreus 10.39 se diz que os cristãos não são “dos que retrocedem”. A frase diz respeito à caminhada de fé, mas bem pode servir de metáfora para nossa postura nas questões políticas. Os cristãos de Clapham entenderam que nada se faz sem persistência, e essa é a maior ênfase encontrada no conjunto de suas resoluções.

“Não aceitar retiradas como uma derrota final”, “lutar de forma contínua, mesmo que demore décadas”, “manter o foco”, “aceitar ganhos parciais”, e a última das resoluções: prosseguir “com senso de missão e convicção de que Deus o guiará providencialmente se estiver verdadeiramente a seu serviço.” Ou como diz um de nossos hinos: “deixai-vos de chorar. Se onipotente é vosso mestre, por que desanimar?”

No quadro atual de colapso político e econômico para o qual o Brasil caminha, após um 2015 em que nada parecer ter se resolvido, temos muito o que aprender com aqueles que ajudaram a derrotar um sistema que foi um dos maiores flagelos da humanidade.

É notável que enquanto se engajavam na luta abolicionista, esses cristãos ajudaram, dentre outras iniciativas, “a fundar a colônia de Serra Leoa, onde escravos libertos poderiam viver livres, a reformar as condições das prisões, a combater a exploração do trabalho infantil, e a fundar a Sociedade para o Alívio dos Trabalhadores Pobres” (p. 312).

A um Brasil de quase 20% de população evangélica, e que pouco resultado positivo tem colhido de tantas “conversões” — para não mencionar as atuações vergonhosas de políticos “evangélicos” — quanto não pode ensinar este pequeno grupo de cristãos que, confiado na graça de Deus, e guiado pelos princípios corretos, usou a política para ajudar a transformar a face da Inglaterra e do mundo?

Márcio Santana Sobrinho é jornalista.

Os primeiros cristãos eram socialistas?

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Os primeiros cristãos tinham seus “bens em comum”, e Jesus expulsou os mercadores do templo e repreendeu o jovem rico. Eram eles socialistas?

por Alberto Mansueti

São três as passagens mais citadas por gente de esquerda sobre este ponto. Porém, cada uma delas tem sua explicação:

1 – Jesus expulsou a chicotadas os mercadores do Templo.

Sim, mas é preciso ler corretamente os evangelhos: Mateus 21, Marcos 11, Lucas 19 e João 2. Não eram simples “mercadores”; eles comercializavam a religião. A cada festa da Páscoa, vendiam as pombas e animais para os sacrifícios no Templo. E os cambistas trocavam o dinheiro grego e romano dos peregrinos por moedas judaicas, as únicas autorizadas para as oferendas. O templo, “Casa de Oração”, e não de negócios, se encontrava tomado por todo esse ruído e desordem.

Jesus nada tinha contra o trabalho e o comércio: ele e sua família eram carpinteiros; boa parte de seus discípulos era de pescadores; e suas maiores lições sobre o Reino de Deus são as “parábolas agrícolas”, com vinhas e propriedades, senhores e trabalhadores: nada tinham contra o capitalismo nem a favor do socialismo. O comércio com o sagrado é algo distinto; por isso aquele ato foi o equivalente a hoje expulsar a chicotadas esses pastores que enriquecem com dízimos e ofertas, “promessas” e “pactos”.

2 – E o “jovem rico”?

Leia com atenção Mateus 19, Marcos 10 e Lucas 18. Um camelo não passa pelo buraco de uma agulha; é impossível. Não é como dizem, que “Agulha era o nome de uma porta da cidade”; ou “uma corda, e a palavra se parecia com um camelo”, etc. A pergunta do jovem rico nada tem que ver com riqueza, mas com vida eterna: “Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna?” A resposta correta é: nada; porque a salvação é pela graça. “Ao Senhor pertence a salvação”: Salmo 37.39, Isaías 33.22, Jonas 2.9. E o jovem o sabia. Porém, Jesus quis que ele pensasse novamente sobre a questão, por isso repassou com ele os mandamentos; e o jovem respondeu que os observava desde a infância. Então Jesus lhe mandou que desse sua fortuna aos pobres, porém, não para ganhar o mesmo na eternidade com Deus, nem para fazer “justiça social”, mas para desligar-se de seus afãs e negócios, e se tornasse um discípulo: “segue-me”, tal como Mateus.

A vida eterna com Deus não é algo que alguém faz por merecer cumprindo essa ou aquela regra, como creem os “sinergistas” e a grande maioria das pessoas. Não é algo que os ricos podem comprar com suas riquezas; nem tampouco “ganhar” dando suas riquezas aos pobres, como dizem (mas não fazem) os socialistas. E o discipulado? Bem, esse é outro assunto: para isso, sim, é necessário deixar muitas coisas, e o jovem não estava pronto. Essas são as duas lições de Jesus ao jovem — e aos discípulos que ali estavam. Quando disse que era mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que alguém entrar por seus méritos na Salvação, os discípulos lhe fizeram outra pergunta: “Sendo assim, quem pode ser salvo?”. Resposta de Jesus: “Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível”.

3 – No livro de Atos dos Apóstolos se diz que os primeiros cristãos tinham seus “bens em comum”.

Lendo bem o contexto se vê que isso ocorreu só em uma das primeiras igrejas: a de Jerusalém, porém não nas outras. E como os cristãos de Jerusalém não podiam manter-se, as outras igrejas lhe fizeram uma coleta: Gálatas 2.10, 1Coríntios 16.1-3, 2Coríntios 8-9, e Romanos 15.25-27.

E por que isso aconteceu? Por duas razões: (1) os primeiros cristãos, quase todos judeus, eram perseguidos pelos demais judeus, em todo lugar, como se lê ao longo de todo o livro de Atos; e em Jerusalém, a capital, a perseguição era mais virulenta. (2) Eles estavam esperando o “Dia do Senhor”, o castigo divino sobre a cidade, por haver ela rejeitado e crucificado o Messias, e perseguido a seus seguidores. No capítulo 24 do Evangelho de Mateus, Jesus profetiza esse terrível dia de juízo, anunciando os sinais que viriam: falsos messias, guerras e rumores de guerras, fome, terremoto e pestes, perseguições e apostasias, e o “abominável da desolação”. Seria a “grande tribulação” que marcaria o fim, não do mundo, mas de uma era: a era judaica; e o começo de outra, a era cristã.

Esperando o dia de juízo, os cristãos viviam como em um gueto, quase na clandestinidade. Por isso não tinham negócios nem bens próprios; e no ano 70 d.C., quando se cumpriu a profecia de Jesus, e o juízo se abateu com as legiões romanas de Tito, os cristãos fugiram, ou já haviam deixado a cidade. Haviam se mudado, e estavam em diáspora, pregando o evangelho do Reino. A comunhão de bens foi uma medida excepcional, para uma emergência, somente naquela cidade; não é algo que se tome como norma no Novo Testamento. Por isso a coleta. E o casal Ananias e Safira, que mentiu sobre o preço de um terreno, foi condenado por sua mentira, não por resistir ao socialismo.

Concluindo, por que não se sabe a verdade? Por que essas interpretações corretas da Bíblia não são amplamente divulgadas e conhecidas?

Porque vão de encontro a crenças muito arraigadas e populares, que as más exegeses apóiam. (1) Não contam como realmente foi o caso dos mercadores expulsos a chicotadas porque isso seria contrariar as negociatas religiosas que são tão comuns a muitos pastores de hoje em dia; por isso fazem concessões em apoio às ideias socialistas. (2) Põem a frase do camelo e o buraco da agulha como favorável ao socialismo, porque esse diálogo, lido da forma correta, não vai contra os ricos, nem contra o capitalismo, mas contra a popular crença católico-romana de que o Céu é um prêmio que se ganha em razão de uma “boa conduta”. (3) E se o caso dos “bens em comum” dos cristãos de Jerusalém fosse lido apropriadamente, seria necessário mencionar a feroz perseguição dos judeus aos cristãos, e o terrível juízo de Deus sobre os judeus e sua cidade sagrada; e isso poderia soar “antissemita”, e não é “politicamente correto”, entende? Por isso retorcem Mateus 24, para dizer que fala do “Fim do Mundo” vindouro, quando não é o caso. E utilizam o caso de Ananias e Safira para apoiar teses socialistas, quando também não se trata disso.

 Alberto Mansueti é advogado e cientista político.

Originalmente publicado no jornal boliviano El Día.

Tradução: Márcio Santana Sobrinho

Capitalismo nos Dez Mandamentos?

por Alberto Mansueti

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“Socialismo, como toda tirania, histórica ou atual, é uma transgressão completa e gravíssima de cada um dos dez mandamentos”

“Em que parte da Bíblia há apoio para o capitalismo?”, me perguntam no rádio. Digo que principalmente nos Dez Mandamentos, o resumo da lei de Deus, ao condenar e proibir severamente todo tipo de abuso de poder e idolatria, incluindo a que se rende ao Estado. Porém, vamos por partes.

Primeiro, o que é o capitalismo? É o nome dado pelos comunistas ao “sistema de economia natural” ou de livre mercado que surgiu de maneira espontânea quando havia “governo limitado”, o sistema político que Deus ordena na Bíblia: em seus cinco primeiros livros, especialmente Deuteronômio. Ele já não existe porque em quase toda parte as esquerdas impuseram um governo totalitário e socialista sem limites, contrário à natureza das coisas, que o substituiu.

E o socialismo? É o oposto do capitalismo, e a forma atual de estatismo ou estatolatria. Como toda tirania, histórica ou atual, é uma transgressão completa e gravíssima de cada um dos dez mandamentos. Veja Êxodo 20 e compare:

  1. Não ter outros deuses.

    O socialismo é uma falsa religião, que nos impõe um falso deus: o mega-Estado totalitário, no qual se deposita toda a fé e esperança de salvação terrena, e ao qual se confere todos os atributos do Deus da verdade: sabedoria e providência, onipotência, onipresença, e plenitude de caridade e misericórdia. Exige-se para ele obediência incondicional, honra, glória e culto a partir da educação pública, que é sua catequese e discipulado.

  2. Não fazer imagens de escultura.

    Como era, por exemplo, o desfile de 1º de maio em Moscou? Com bandeiras gigantes de Marx e Engels, e do líder supremo da vez, sumo-sacerdote da liturgia. E os enormes mísseis, evidentes símbolos fálicos e do poder militar do deus-Estado. Com bandeiras e escudos, entoando hinos e cantos solenes, como no “Dia do Partido” da Alemanha nacional-socialista.

  3. Não tomar o nome de Deus em vão

    Para usá-lo com algum propósito periférico. É o que fazem as esquerdas religiosas, por exemplo, o socialismo sionista disfarçado de judaísmo; a “teologia da libertação” marxista disfarçada de catolicismo; o “evangelho social” travestido de protestantismo; e a “jihad” ou guerra santa política, como se fosse o genuíno islã.

  4. Guardar o dia do Senhor.

    Por que no domingo os socialistas fazem eleições, e as esquerdas “verdes” fecham ruas e interrompem o trânsito? Para dificultar os cultos, e as reuniões familiares; porque o socialismo é contra a igreja, a família, e contra tudo o que Deus abençoa.

  5. Honrar pai e mãe.

    Este Estado é “um deus ciumento”: rouba da família funções, liberdades e bens, a empobrece e anula; a destrói para ocupar seu lugar. O feminismo, criado pelo socialismo, põe o Estado como marido de todas as mulheres, e pai de todos os filhos, separados de suas famílias pela escola pública, onde o comunismo ensina a delatar aos pais “contrarrevolucionários”.

  6. Não matar.

    É um deus cruel e assassino. “O livro negro do comunismo”, editado na França (1997) por Stephane Courtois, registrou até agora uns cem milhões de mortos. E a conta segue…

  7. Não cometer imoralidade sexual.

    Ao marxismo clássico ou econômico do século 20, o “socialismo do século 21”, soma-se hoje o “marxismo cultural”, que em sua feroz investida contra a família, legitima o aborto e todo tipo de união sexual imaginável e inimaginável.

  8. Não roubar.

    O socialismo é um roubo. “Redistribuir a riqueza” é tomá-la de seus donos legítimos, todos nós que trabalhamos, com impostos excessivos, moedas sem lastro metálico e inflação galopante, crédito sem base em depósitos, dívida selvagem, pirâmides financeiras do tipo “seguro social” e outros confiscos.

  9. Não mentir.

    A mentira aparece sempre na lista pois serve para ocultar e dissimular ou justificar assassinatos, imoralidade e roubos. O socialismo é uma grande falsidade, para encobrir todos os seus delitos, montada sobre uma “teologia” estatista costurada em sofismas grosseiros, evidências e testemunhos truncados ou escamoteados, teorias forjadas, e especulações improváveis ou impossíveis.

  10. Não cobiçar.

    Os mandamentos anteriores protegem a vida, a família, a propriedade e trabalho, e a verdade; são os pilares e valores do capitalismo. E este, o décimo mandamento, põe uma proteção adicional, porque a maioria dos crimes começa pela cobiça, que é o princípio e a base ética do socialismo, assim como o trabalho produtivo e o desenvolvimento são princípio e base do capitalismo.

Por isso votar nas esquerdas é tão imoral quanto o próprio sistema socialista, porque valida todas as faltas citadas à lei de Deus, e porque a cobiça manda o Estado roubar “dos ricos” para repartir “com o povo”. Ainda que a realidade seja que os chefes e burocratas socialistas são deixados com todo o espojo e nada sobre para o povo; porém, esse é o castigo trazido pelas consequências do pecado!

Os socialistas “cristãos” dizem que a lei de Deus e, portanto, o capitalismo, são coisas do Antigo Testamento, não do Novo. Ah, é?! Pois assim se inverte o ônus da prova, e eles é que têm de mostrar no Novo Testamento onde se revogam os mandamentos, ou onde Jesus e seus apóstolos apoiam ou praticam o “cesarismo”, ou o socialismo. Somente um o pratica: aquele que “roubava da bolsa” (João 12.6).

Alberto Mansueti é advogado e cientista político.
Tradução: Márcio Santana Sobrinho

As propostas políticas do Príncipe da Paz

achernar-2-sHá muito debate sobre a data em que a Igreja católica (aquela do artigo 9º do Credo Apostólico) se lembra de uma forma especial do nascimento do Salvador. Vamos deixar este debate de lado por um momento. Fato é que, pelo menos para a Igreja do hemisfério Norte, o final de dezembro é uma época muito apropriada para se lembrar da vinda do Príncipe da Paz. É no final de dezembro que ocorre o solstício de inverno, que marca o dia mais curto do ano. Em outras palavras, é a época quando as trevas mais demoram e se prolongam. Também na Palestina.

É chamativo o fato de que a Igreja veterotestementária esperava a vinda da Luz para espantar as trevas. Quando o sacerdote Zacarias, cheio do Espírito, profetizou acerca do nascimento e ofício do seu filho João Batista, ele fez questão de declarar que a salvação e redenção tão esperadas tinham tudo a ver com a certeza que “… nos visitará o sol nascente das alturas, para alumiar os que jazem nas trevas e na sombra da morte, e dirigir os nossos pés pelo caminho da paz.” (Lucas 1.78)

Zacarias conhecia bem as Sagradas Escrituras. Os profetas tinham falado muito da vinda da Luz em meio das trevas. Malaquias (4.2) falou: “Mas para vós outros que temeis o meu nome nascerá o sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas.” Isaías (9.10) declarou e Mateus confirmou (4.14) a chegada do Cristo usando também a metáfora da luz: “O povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz.”

Assim foi. Em meio à escuridão da noite nas campinas de Belém, uma luz gloriosa brilha sobre os primeiros pastores que anunciaram as boas novas que o Salvador do mundo nasceu. Uma estrela brilhando na escuridão do firmamento guia os magos até o lugar onde o Verbo se fez carne.

A Luz resplandece nas trevas…

A Luz pressupõe divindade. Quando Jesus se declara a Luz do mundo, Ele se identifica com Deus. Deus habita em luz inacessível. Deus é luz, e não há nEle treva nenhuma (1 João 1.5). Cristo é a verdadeira Luz, que vinda ao mundo, ilumina todo homem. (João 1.9)

A Luz pressupõe opposição e conflito, a antítese entre o império das trevas e o Reino do Filho do Seu amor (Colossenses 1.13). No império das trevas reina a confusão, a imoralidade, o desespero, a perversidade, a morte.  “O caminho dos perversos é como a escuridão; nem sabem eles em que tropeçam.” (Provérbios 4.19) Quem anda na Luz, reprova as obras infrutíferas das trevas (Efésios 5.11) No Reino da Luz, reina não a confusão, mas a comunhão; não a imoralidade, mas a imortalidade; não o desespero, mas o despertar de uma nova vida; não a perversidade, mas a perseverança em fazer boas obras; não a morte, mas o amor. Como Jesus falou: “Quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida.” (João 8.12) E como o apóstolo falou, “Que comunhão tem a luz com as trevas?” (2 Coríntios 6.14).

A Luz pressupõe vitória. “A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela.” (João 1.5) Fato é que onde tem a luz, as trevas são espalhadas. Não conseguem resistir. Nesta ferrenha guerra mortal, quem está do lado das trevas perde. E é destruído. Será lançado nas trevas exteriores (Mateus 22.13).

A Luz pressupõe soberania na salvação. Quando Deus anuncia a vinda do Seu Filho, como a Luz para as nações, Ele deixa claro que toda a gloriosa iniciativa ficará por conta dEle: “… para abrires os olhos aos cegos, para tirares da prisão o cativo e do cárcere, os que jazem em trevas.” (Isaáis 42.7)  Da parte do pecador, total incapacidade e, portanto, total dependência da misericórdia divina; da parte de Deus, toda a glória.  “Eu sou o Senhor, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem” (v. 8).

A Luz pressupõe a presença do Reino de Deus: o governo divino diante do qual todo joelho se dobra, a exaltação da vontade de Deus e a alegre submissão da vontade do homem a ela, e o crescimento da justiça e paz na medida que o Reino de Deus avança com poder. Não é por acaso que Isaías começa o capítulo 9 falando do resplandecer da Luz, e apenas alguns versículos depois já está falando sobre o trono e governo de justiça e paz do Cristo.  O Rei Davi, instruído pelo Espírito de Deus, percebeu a estreita ligação entre a luz do sol e um trono fundamentado na justiça de Deus. “Aquele que domina com justiça sobre os homens, que domina no temor de Deus, é como a luz da manhã, quando sai o sol, como manhã sem nuvens, cujo esplendor, depois da chuva, faz brotar da terra a erva.” (2 Samuel 23.3,4). Onde há um governo que se submete ao Rei dos reis, que se submete à vontade dAquele que está sentado no trono do universo, que ordena obediência segundo os princípios das Sagradas Escrituras, que reconhece e respeita as ordenanças e instituições embutidas na própria criação, alí debaixo da luz do sol da justiça haverá um pais no qual brota a vida, a liberdade, a felicidade, e a prosperidade em todos os sentidos.

Por outro lado, onde tem um governo que se levanta e conspira contra o SENHOR e contra o Seu Ungido, que cria leis e regulamentos aleatoriamente e sem referência à vontade do Criador, que promove uma agenda que abraça a confusão de categorias e instituições embutidas na criação como gênero e casamento, ali haverá a escuridão do império das trevas, e ali murchará e morrerá tudo que é verdadeiro, tudo que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo que tenha alguma virtude, tudo que é louvável. O que cresce no escuro? Só a podridão, a putrefação, a impureza, a imundíce, a obscenidade, a baixeza, a grosseria, a infidelidade e todas as demais coisas relacionadas.

Procurando um messias

Como sempre, vivemos momentos de crise em nosso Brasil. Nosso pais está sendo assolado por trevas de todo tipo. A ideologia de gênero, o ataque contra a instituição de casamento, a imoralidade generalizada, a corrupção, a injustiça, a violência, a infidelidade e traição que são considerados uma parte normal da vida, a instituição da família está cada vez mais sob ataque, e nem a vida no útero está segura contra as tentativas de muitos para legalizar o assassinato de bebês não nascidos. Como sempre, estamos sendo tentados a procurar um messias, alguém que vai salvar a pátria, que porá ordem na economia e na sociedade em geral, que aplicará o freio nesse processo vertiginoso de deteriorição da moralidade e destruição da família.

Mas o Salmo 146 nos ensina que não devemos procurar um messias que é meramente homem. Nem se ele tiver o nome “Messias” na sua identidade. Só tem um Messias que pode reverter o quadro, que pode trazer esperança, que pode por ordem no caos deste mundo caído, este calderão que ferve e se agita em rebelião contra o Senhor e o Seu Cristo. Este Messias do qual precisamos é o Senhor Jesus Cristo.

Ele nasceu, Ele veio como luz nas trevas. O governo está sobre seus ombros. Ele que é eterno Filho de Deus, é também o grande filho de Davi que está sentado no trono de Davi. Como raiz e geração de Davi (Apocalipse 22.16), Ele entende que o único governo que dá certo é aquele que é administrado conforme a vontade de Deus e à luz da Palavra e vontade de Deus. Por isto, Ele é chamado “a brilhante Estrela da manhã”.  Justiça e direito são o fundamento do Seu trono (Salmo 89.14). Como diz o Credo Niceno: o Seu reino não terá fim. Como dizem Daniel,  Isaías, e outros profetas, o Seu governo vai aumentar, e com Seu governo crescente também a paz e justiça vão aumentar, até que Seu reino derrube todos os impérios dos homens revoltados, até que Seu reino está enchendo toda a terra, até que toda a terra “terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Habacuque 2.14).

O que precisamos fazer?

Nunca teremos êxito em buscar um Brasil melhor baseado em mudanças meramente políticas e institucionais. Brasil precisa de uma mudança mais profunda, mais radical. Precisa de uma mudança na própria alma. A Igreja precisa orar e trabalhar, para que os nossos governantes e os nossos concidadãos sejam confrontados com a santa vontade de Deus em todas as áreas da vida e da sociedade. Precisamos continuar em oração regular, frequente, e fervorosa para que o governo, cujo coração está como ribeiros de águas na mão do Senhor, se incline segundo o Seu querer não por obrigação, mas por profunda vontade que surge do entendimento de que a obediência traz vida, e a rebelião traz a morte. Nem sempre conseguiremos eleger governantes que tem corações regenerados. De fato, isto talvez será e continuará sendo uma raridade. Mas podemos rogar a Deus, para que em Sua graça “comum”, Ele possa dirigir os corações e esclarecer as mentes dos nossos governantes ao ponto de eles perceberem, mesmo no seu estado não regenerado, que legislação desenvolvida em conformidade com a vontade do Criador sempre será para o bem e para a prosperidade do nosso pais.

Para conseguir isto, precisamos fazer mais do que apenas orar. Precisamos nos organizar. Precisamos agir. Os nossos irmãos reformados no Canadá tem uma associação de ação política (ARPA). Eles criam documentos analisando projetos de lei à luz dos princípios das Sagradas Escrituras. Eles realizam reuniões com parlamentares, e publicam editorias nos jornais de circulação nacional. Milhares de reformados pagam um pequeno valor mensal que permite a associação contratar advogados e outros profissionais para promover a visão bíblica e reformada. Os advogados da ARPA já foram ouvidos várias vezes pela Suprema Corte em vários julgamentos sobre assuntos importantes, como a liberdade de religião e questões morais.

Por que não fazer algo semelhante aqui no Brasil? Nós já temos o excelente trabalho da ANAJURE que foca em lutar para manter a liberdade religiosa. Mas podemos fazer mais. O que falta no cenário brasileiro é um projeto que proclama e promove uma visão bíblica sobre todo aspecto da vida e da sociedade, que oferece uma analise bíblica e reformada para os nossos políticos sobre todos os assuntos que estão diante do Congresso, dos legislativos estaduais, e das cameras de vereadores municipais.

e as trevas não prevaleceram contra ela

Não fique pensando que isto é grande demais para nós. Não fique pensando que não adianta. Fato é que a derrota do império já está decretado. O Reino da Luz crescerá até o dia quando não vai sobrar nenhuma sombra, pois até a noite vai desaparecer e viveremos para sempre na luz do Sol da Justiça. Quando as coisas parecem mais escuras e a causa parece mais perdida, é naquele momento que a luz do brilho da glória de Deus irrompe com mais estrondoso poder para dentro do nosso pequeno mundo.

Veja o que aconteceu com aquele bebê que nasceu como luz em meio das trevas. No momento que o diabo pensou que tinha conseguido apagar esta pequena faísca, Ele triunfou sobre os poderes deste mundo tenebroso, explodiu com vida, saindo do túmulo, e iniciou o progresso invencível e imparável do Seu reino. Aquele que tinha somente doze discípluos agora é conhecido e reconhecido por bilhões de pessoas no mundo inteiro.

Pelo que, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos; pelo contrário, rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam, não andando com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus; antes, nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade. Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus. Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos, por amor de Jesus. Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo.

(2 Coríntos 4.1-6)

Entendeu o recado? Chega de ficarmos parados. Chega de desfalecermos. Chega de nos acomodarmos às coisas vergonhosas promovidas por aí. Chega de adulterarmos a Palavra de Deus para justificar a nossa tolerância das nojeiras que são exaltadas em nossos dias.  Conhecemos a Luz do mundo. Ele tem resplandecido em nossos corações. O brilho da glória dEle enche as nossas vidas. Tornemo-nos então irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplendecemos como luzeiros no mundo, preservando a palavra da vida. Tudo isto, nAquele que é o Verbo que se fez carne.

Feliz Natal.

 

7 princípios cristãos para uma política realista

por Kevin D. Young

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“Estamos em um mundo caído. As coisas não são como deveriam ser. A utopia não é possível. Portanto, as decisões políticas devem lidar com o equilíbrio, pesando os prós e contras”

A Bíblia é um livro grande, de modo que há uma série de coisas que podem ser ditas no esforço de formar uma visão política de mundo a partir dos princípios bíblicos. Mas isto aqui é um blog, não um livro. Então deixe-me tomar apenas uma área doutrinária e destrinchar algumas implicações possíveis.

Creio que nossas mais importantes considerações políticas nascem de uma compreensão apropriada da pessoa humana. Quanto mais nossos políticos e instituições políticas agirem em acordo com o modo como as coisas realmente são e o modo como nós realmente somos, mais cresceremos como nação.

Considere estes princípios antropológicos à medida que desenvolve sua práxis política:

  1. O homem é feito à imagem de Deus (Gn 1.26-27). Não importa quão pequeno, frágil, velho ou deficiente, todo ser humano tem valor e dignidade. O governo deve proteger a vida humana e punir aqueles que a prejudicam (Rm 13.4; Gn 9.6);
  2. O homem é feito para o trabalho (Gn 2.15). Devemos maximizar os incentivos ao trabalho árduo e remover os incentivos que encorajam a preguiça (2Ts 3.6-12);
  3. A parte própria do ser humano, da qual Deus não compartilha, é que estamos sujeitos às devidas autoridades. Isso inclui a sujeição ao governo e a exigência de pagar impostos (Rm 13.1-7);
  4. Os seres humanos são motivados pelo interesse pessoal. Jesus compreendia isto quando nos disse para amar ao próximo como já amamos a nós mesmos (Mt 22.39). Interesse pessoal não é automaticamente o mesmo que avareza ou ganância, e essa é a razão porque Jesus não hesitou em motivar os discípulos com a promessa de serem os primeiros ou com a garantia de recompensa (Mt 6.19-20; Mc 10.29-31). É preciso dizer que nosso interesse pessoal nem sempre é virtuoso. A obra do evangelho é ensinar às pessoas como esse interesse pessoal (satisfação) pode casar com o interesse de Deus (glória). Mas as melhores políticas são aquelas que podem solapar o poder do interesse pessoal em favor de um bem maior;
  5. Os seres humanos não são apenas consumidores do planeta; também somos também criadores. O mundo físico é uma dádiva e uma ferramenta. Temos a capacidade de espoliar, mas também a responsabilidade de subjugar (Gn 1.28);
  6. Por causa do pecado de Adão, estamos em um mundo caído (Rm 5.12; 8.18-23). As coisas não são como deveriam ser. A utopia não é possível. Portanto, as decisões políticas devem lidar com o equilíbrio, pesando os prós e contras das várias políticas. Não podemos eliminar as realidades de viver em um mundo caído (Jo 12.8), mas boas políticas podem ajudar a mitigar algumas dessas piores realidades;
  7. A natureza humana é inclinada para o mal (Gn 6.5; Jr 17.9). Isso significa que não podemos contar com a boa vontade dos outros ou das outras nações, não importa quão bem intencionados possamos ser ou o quanto cuidemos apenas daquilo que é da nossa conta. A questão não é de onde virá a guerra. Ela deve ser esperada, dada a nossa natureza. A questão é saber quais instituições e políticas são mais efetivas em estabelecer a paz.

É claro que há mais coisas que poderíamos dizer sobre a natureza da liberdade, a importância da justiça, e o direito à propriedade privada. Esses são três temas bíblicos cruciais. Mas os sete princípios acima podem nos ajudar a começar a compreender o mundo, tomar decisões no mundo, e eleger políticos que entendam o modo como o mundo funciona.

Fonte: Christian Principles for Realistic Politics

Tradução: Márcio Santana Sobrinho

“Fatos, não palavras”

por Alberto Mansueti

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“O ditado ‘fatos, não palavras’ é irracional; e é imoral, tóxico e contaminante, além de potencialmente destrutivo para uma civilização”

Esse ditado resume a filosofia mais idiota, perversa e daninha que se possa imaginar. Porém, é amplamente popular, porque o ódio à palavra, à inteligência, à ciência, e ao estudo, que é o meio de se alcançar sabedoria, é precisamente a filosofia que a imensa maioria das pessoas hoje abraça.

É o que diriam os animais, se pudessem expressar-se com palavras. Muitas pessoas se comportam como animais, em uma época que idolatra os animais, e pretende atribui-lhes “direitos”, e tratá-los como “pessoas não humanas” (?). “Fatos, não palavras! Quero minha comida agora!”, nos diria o gato, se falasse. “Fatos, não palavras! Leve-me à rua para fazer xixi e cocô”, nos diria o cachorro, se pudesse. Eles não foram dotados com esse dom, ligado ao pensamento racional, e à comunicação racional entre pessoas mediante a expressão, verbal ou escrita.

Parece que esta frase, em latim “Res et non verba”, se originou em Roma, quando os toscos e iletrados campesinos e soldadinhos romanos fizeram contato com os gregos, dados ao cultivo da filosofia, ao diálogo e ao debate. Os romanos, ao contrário, dados às superstições, advinhações, astrologia e ao pensamento mágico, consideravam essa ignorância rebelde e contumaz, que se subleva contra a erudição, como um “senso prático”. Porém, “nada mais prático do que uma boa teoria”, escreveu José Ortega y Gasset. Continue lendo

O STF e o impeachment: entenda o voto de Fachin

por Vinícius S. Pimentel

Ministro Edson Fachin em sessão plenária. Foto: Carlos Humberto/SCO/STF

A decisão do ministro, caso seja acompanhada pelos demais membros do STF, impõe várias derrotas às teses defendidas pelos governistas. (Foto: Carlos Humberto/SCO/STF)

Na última quarta-feira, 16, o Supremo Tribunal Federal iniciou o julgamento da medida cautelar na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 378, proposta pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), a qual questiona a conformidade à atual Constituição da República de diversos dispositivos da Lei 1.079/1950, que trata dos crimes de responsabilidade dos agentes políticos e regula o processo de impedimento (impeachment). O ministro Edson Fachin, relator do processo, rejeitou a maior parte dos pedidos liminares do partido e reconheceu a validade do procedimento até aqui adotado pela Câmara dos Deputados. Após o voto do relator, a sessão foi suspensa e será retomada nesta quinta, 17.

O caminho adotado por Fachin seguiu o que ele mesmo chamou de “autocontenção” do Poder Judiciário perante o Legislativo, ao afirmar que “não cabe ao STF editar normatização sobre a matéria”. Em vez de atuar como “legislador positivo”, o ministro optou por uma proposta comedida, afirmou que as regras para o processo de impeachment estão previstas na Constituição e na Lei 1.079/1950 e reconheceu a autonomia da Câmara dos Deputados e do Senado para aplicar os seus respectivos regimentos no que se refere às normas de “auto-organização”.

Fachin reconheceu a validade do procedimento seguido pelo Legislativo até aqui e, ao final do seu voto, decretou a perda da eficácia da decisão por ele mesmo proferida no dia 9, na qual havia suspendido a formação e instalação da comissão especial responsável pelo processamento do impeachment na Câmara dos Deputados. (Por sugestão do presidente do STF, a comissão apenas ficará suspensa até o fim do julgamento da liminar, o que deverá ocorrer hoje.) Continue lendo

Bolha Econômica

por Lucas G. Freire

O governo Dilma anunciou, às vésperas da eleição, um pacote econômico que injetará mais moeda e crédito na economia. O objetivo do pacote é estimular o investimento e o consumo, trazendo um crescimento imediato a certos setores da economia.

O cristão não tem motivo prático ou moral para celebrar.

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Estado Regulador?

por Lucas G. Freire

Um artigo de Hélio Schwartsman na Folha de São Paulo defende uma tese interessante: o Estado brasileiro tem obrigado o consumidor a pagar o preço das regulações econômicas que, ironicamente, são feitas em defesa do próprio consumidor.

Por exemplo obrigar as companhias aéreas a providenciar hospedagem em hotel em caso de cancelamentos no voo acaba aumentando o preço da passagem aérea. Outro exemplo: a lei que tem sido discutida, proibindo a diferenciação de preços em compras pagas com cartão de crédito. Só alguns preços seriam aumentados (os pagos em cartão) e, com a regulação, é provável que todos os preços sejam aumentados para compensar, já que não podem ser diferenciados.

Até aí, Schwartsman acerta em cheio. Porém, ele começa o artigo praticamente pedindo desculpas por defender menos regulação. Ora, a economia brasileira é uma das mais reguladas no mundo inteiro. Não há por que pedir desculpas.

Pelo contrário: é preciso ser mais agressivo ao empurrar o Estado brasileiro de volta à sua esfera de autoridade.

Schwartsman acha que não é possível viver sem o Estado ditando em qual lado da estrada os carros devem dirigir, ou obrigando as pessoas a usarem papel colorido impresso pela Casa da Moeda para comprar e vender, ou determinando “convenções mínimas” para facilitar a interação entre as pessoas.

Isso é, na perspectiva histórica e prática, um equívoco. O Estado – essa comunidade política que reivindica o monopólio legítimo do uso da coerção no seu território – é uma forma relativamente recente de organização humana.

Antes do Estado-nação moderno, fruto da Revolução Francesa, já havia estradas, moeda e convenções mínimas para a interação social. Do ponto de vista histórico, existe, portanto, um grande erro nessa afirmação.

Além disso, existe também um outro tipo de erro. Do ponto de vista prático, é possível verificar como as pessoas resolvem seus problemas onde esses padrões não são providos.

Por exemplo, observações recentes em lugares onde as leis de trânsito são experimentalmente suspendidas confirmam que a segurança nas vias públicas melhorou ao invés de piorar. As pessoas passam a ter mais cuidado e estimam melhor o espaço utilizado por seu veículo. Elas negociam com os outros motoristas e, em geral, tornam-se melhores motoristas.

Um exemplo ainda mais interessante: uma das convenções mais complexas é a própria linguagem. A linguagem, tal como a utilizamos no dia-a-dia, desenvolveu-se historicamente como fruto de milhões de interações descentralizadas. Nenhuma linguagem planejada por um comitê de burocratas tem uma gramática ou vocabulário tão capazes de responder à constante mudança social como as línguas usadas espontaneamente de forma descentralizada.

Aliás, em diversas ocasiões, a mão do Estado na regulação desses padrões acaba atrapalhando. A história da inflação está aí para provar que a socialização da moeda tem dificultado ao invés de facilitar a vida econômica.

Como a linguagem, a moeda emergiu também por uso descentralizado e criativo em milhões de interações. Originalmente um bem mais útil que um mero pedaço de papel (como ouro ou prata), ela facilitou a vida econômica justamente por ser uma ferramenta constante de cálculo, fácil de transportar, maleável e com limites à sua falsificação. Desde que o socialismo monetário foi implementado, esses elementos foram perdidos, um por um.

Olhe para um país com hiperinflação e veja o que acontece: as pessoas espontaneamente (aliás, apesar da coerção governamental que obriga ainda a usar o papel-moeda hiperinflacionado) começam a usar um outro meio de troca, ou até mesmo recorrem ao escambo pré-monetário.

Ao contrário do mito contratualista que o Estado usa para se justificar, o Estado não cria a sociedade e a cooperação. Muitas vezes, a sua falha ou inferioridade inclusive deixa isso evidente.

Ao longo da era moderna, o Estado se agigantou sobremaneira, e usou intelectuais “moderados” como Schwartsman para persuadir o público a aceitar seu gigantismo. Agora, mesmo os “moderados” creem que o Estado foi longe demais. Sua reação, porém, é apática e desprovida de substância moral.

A política cristã, pelo contrário, afirma que o Estado deve se circunscrever à sua esfera de autoridade – a esfera da justiça pública.